Paralaxismo Popular
Neste caso de paralaxismo são focados os aspectos de carneirismo, de seguidismo e de subserviência a que podemos (mas não devemos...) estar sujeitos.
Antes do dia 25 de Abril de 1974, quando ainda não estavam abertas “as portas que abril abriu”, poetizadas por Manuel Alegre, não havia escrutínio (se se pode chamar isso...) que não contivesse milhares de votos de mortos e abstencionistas, colocados nas urnas por indivíduos de grande baixesa (talvez a palavra seja forte de mais, talvez ganhassem dinheiro para comprar comida para os filhos, não sei...) filiados na Acção Nacional ou Legião, ou outros organismos que tais...
Nessa altura eram os regedores, os párocos, os grandes agricultores, etc. (os caudilhos...), que obrigavam os cidadãos a uma opção política, por todos os meios que tinham ao seu dispôr, nomeadamente “coação”; o povo não ligava aos direitos que tinha, ou não tinha consciência deles, e ajudava a manter o status-quo que ia beneficiando sempre os mesmos.
Depois de “as portas estarem abertas” esse hábito diminuiu drásticamente (e felizmente...), sendo que hoje temos total liberdade de voto, embora perto de 60% dos eleitores portugueses ainda continue a pensar: “quero que se lixem todos, tão sacanas são uns como outros...”.
Mas, mesmo em democracia, não se pense que tudo “corre sobre rodas”; não podemos pensar que todos os ocupantes de cargos políticos estão na “cadeira” porque foram lá colocados pelo povo soberano; não julguemos que eles vão sempre trabalhar no sentido de nos melhorar a vida...; não nos esqueçamos do seguinte:
- 40% de eleitores portugueses não é o mesmo que 40% de portugueses;
- A disciplina de voto dentro dos partidos obriga a que os deputados votem segundo a orientação da direcção dos mesmos, e não em consciência;
- A possibilidade de ficarem nos cargos “ad-eternum” subjaz quase sempre (ou sempre...) a uma manipulação interna sub-rectícia (pois estamos em democracia...), de modo a perpetuar a ocupação dos mesmos;
- O sobrepujar de regalias e dinheiros para os munícipes da área representada pelo “eleito”, obsta a que se acautele o bem de todos; - As perguntas para os referendos são cozinhadas por acordos de gabinete entre partidos; além disso são apresentadas de uma forma oblíqua, devendo muito à clareza, não contemplando a triste iletrícia do nosso povo.
- etc., etc.
Assim sendo, um paralaxismo popular existe quando o povo (todo o povo, e não só os eleitores) descura todas estas nuances da governação, não dando grande importância a estes problemas; este procedimento distorce a análise do ambiente que nos rodeia, pois os governantes podem continuar a fazer o que bem entenderem, sempre almofadados com esta máxima: “fomos eleitos pelo povo – trabalhamos para o povo”, e não aquilo a que temos direito como cidadãos.
E nós continuamos virtual e inconscientemente convencidos disso...


0 Comentários:
Enviar um comentário
<< Home