sexta-feira, maio 26, 2006

NOVO ENDEREÇO

De modo a facilitar a gestão dos temas que venho desenvolvendo nos blogs espalhados por vários servidores, criei um espaço próprio, Grupo Paralaxe, em http://grupo-paralaxe.net/Joomla , onde foi incluído o presente Explicação Dos Casos.

Com esta remodulação espero contribuir mais eficazmente para o alargamento e coesão da Comunidade de Língua Portuguesa, sempre sob o lema «transire benefaciendo», e na senda da construção de uma Consciência Lusófona.

Antecipo os meus agradecimentos por uma visita ao Grupo Paralaxe, e também por quaisquer ajudas que possam e desejem dar para a continuação do projecto.

Bem Hajam
Paralaxe

sábado, abril 30, 2005

Paralaxismo de Credibilidade

Eu não sou um especialista em finanças, nem económicas, nem em qualquer outra disciplina que esteja ligada à questão do valor, seja ele objectivo, ou subjectivo; sei que ela configura uma problemática complexa que merece (tem merecido...) muitos tratados argumentativos e teorizantes.
Contudo, penso ter discernimento suficiente para tecer aqui alguns considerandos, a saber:

a) as coisas têm um valor intrínseco – é o somatório de todos os valores reais e objectivos, necessários para que fiquem acabadas e prontas a ser usadas;
b) as coisas têm um valor de uso – é um valor subjectivo, atribuído por quem as usa;
c) as coisas têm um valor de troca – é um valor semi-objectivo, semi-subjectivo, atribuído em função da oferta e da procura;
d) as coisas têm um valor de estimação – é um valor subjectivo, que depende do maior ou menor apego que essas coisas geraram no seu possuidor;
e) as coisas têm um valor de colecção – é um valor subjectivo, resultante de duas forças antagónicas: uma é a quantidade existente de coisas iguais ou semelhantes; a outra é a apetência pela sua aquisição; quanto maior a quantidade existente, menor a apetência; quanto maior a apetência, menor a quantidade (parece estranho mas não é!; os coleccionadores chegam ao ponto de destruir exemplares para aumentar o valor dos restantes...).

Atentemos agora no valor de um texto:

a) tem valor intrínseco?; sim, tem: é o valor que lhe confere a justeza dos argumentos, a clareza da sua exposição, a razão das suas afirmações;
b) tem valor de uso?; sim, tem: é o valor que se retira da sua leitura (e releitura...);
c) tem valor de troca?; não como texto!, sim considerando o texto como coisa;
d) tem valor de estimação?; não como texto!, sim considerando o texto como coisa;
e) tem valor de colecção?; não como texto!, sim considerando o texto como coisa;

Assim sendo, gostaria que me acompanhassem neste raciocínio: será que a importância de um texto, “tido só como texto”, tendo só valor intrínseco e valor de uso, aumenta com a circunstância de ter sido escrito por “Aquela Pessoa”?; será que a importância do mesmo texto, “tido só como texto”, tendo só valor intrínseco e valor de uso, diminui com a circunstância de ter sido escrito por “Um Desconhecido”?

É por isso que eu chamo a este caso Paralaxismo de Credibilidade; é comum atribuir-se mais valor, maior credibilidade, a qualquer “escrito”, (ou a qualquer “dito”), proveniente de quem já tem Nome e Renome, mesmo quando aquilo que é dito ou escrito não passe de uma algaraviada sem sentido, simplesmente porque “vem dali”; é comum menosprezar-se o valor do que é dito ou escrito, diminuindo assim a sua credibilidade, se o mesmo vier de quem não se conhece, mesmo que demonstre oportunidade, acuidade e sageza.

Os “textos” valem o que valerem “per se” e não “ratione personae”

Permissa venia...

segunda-feira, abril 25, 2005

Paralaxismo de Tempo

Estou plenamente convencido que o leitor considerou, pelas respostas que foram dadas, que todas as três ocorrências se passaram no mesmo espaço-tempo; quer dizer, o homem que morreu esmagado estava debaixo da janela do que morreu de ataque, e no preciso momento em que este arremessou com a arca; inferiu, ainda, que o homem que morreu gelado estava dentro da arca que foi atirada janela abaixo; a ligação foi feita, principalmente, desta maneira:
a) as três almas estavam ao mesmo tempo junto de S.Pedro;
b) o homem que morreu esmagado estava debaixo da janela do ofendido;
c) a arca em causa foi a coisa pesada que matou;
d) o homem que morreu gelado, morreu dentro da arca.

O leitor construiu uma história tràgico-cómica com as ligações que foi fazendo, inconscientemente, ao longo da leitura; nenhuma destas inferências pode ser tirada objectivamente do relato, dado que:
a) não existe nenhum tempo marcado na pergunta de S.Pedro, simplesmente se informa que ela foi feita;
b) não nos referimos à primeira alma, à segunda, à terceira, de modo a não estabelecer proximidade; elas foram apresentadas como uma, outra e a outra;
c) o homem que morreu esmagado não especifica a coisa que o esmagou;
d)o facto de estar a limpar a cara e a compôr a roupa não dá direito a outras ilações que não estas: a roupa esta descomposta e a cara estava suja.
Trata-se de um Paralaxismo de Tempo porque há uma óbvia distorção na análise do ambiente que nos rodeia, causado por uma incorrecta percepção temporal mas, mais precisamente, pelo facto de o leitor ter descurado a correcta apreensão do texto; claro que o autor o foi encaminhado nesse sentido e é aqui que, neste caso, bate o ponto:
Devemos estar permanentemente atentos ao que lemos para formarmos um juízo próprio, consciente, e não um juízo induzido ou inculcado por terceiros.

Paralaxismo Popular

Neste caso de paralaxismo são focados os aspectos de carneirismo, de seguidismo e de subserviência a que podemos (mas não devemos...) estar sujeitos.
Antes do dia 25 de Abril de 1974, quando ainda não estavam abertas “as portas que abril abriu”, poetizadas por Manuel Alegre, não havia escrutínio (se se pode chamar isso...) que não contivesse milhares de votos de mortos e abstencionistas, colocados nas urnas por indivíduos de grande baixesa (talvez a palavra seja forte de mais, talvez ganhassem dinheiro para comprar comida para os filhos, não sei...) filiados na Acção Nacional ou Legião, ou outros organismos que tais...
Nessa altura eram os regedores, os párocos, os grandes agricultores, etc. (os caudilhos...), que obrigavam os cidadãos a uma opção política, por todos os meios que tinham ao seu dispôr, nomeadamente “coação”; o povo não ligava aos direitos que tinha, ou não tinha consciência deles, e ajudava a manter o status-quo que ia beneficiando sempre os mesmos.
Depois de “as portas estarem abertas” esse hábito diminuiu drásticamente (e felizmente...), sendo que hoje temos total liberdade de voto, embora perto de 60% dos eleitores portugueses ainda continue a pensar: “quero que se lixem todos, tão sacanas são uns como outros...”.
Mas, mesmo em democracia, não se pense que tudo “corre sobre rodas”; não podemos pensar que todos os ocupantes de cargos políticos estão na “cadeira” porque foram lá colocados pelo povo soberano; não julguemos que eles vão sempre trabalhar no sentido de nos melhorar a vida...; não nos esqueçamos do seguinte:

- 40% de eleitores portugueses não é o mesmo que 40% de portugueses;
- A disciplina de voto dentro dos partidos obriga a que os deputados votem segundo a orientação da direcção dos mesmos, e não em consciência;
- A possibilidade de ficarem nos cargos “ad-eternum” subjaz quase sempre (ou sempre...) a uma manipulação interna sub-rectícia (pois estamos em democracia...), de modo a perpetuar a ocupação dos mesmos;
- O sobrepujar de regalias e dinheiros para os munícipes da área representada pelo “eleito”, obsta a que se acautele o bem de todos; - As perguntas para os referendos são cozinhadas por acordos de gabinete entre partidos; além disso são apresentadas de uma forma oblíqua, devendo muito à clareza, não contemplando a triste iletrícia do nosso povo.
- etc., etc.
Assim sendo, um paralaxismo popular existe quando o povo (todo o povo, e não só os eleitores) descura todas estas nuances da governação, não dando grande importância a estes problemas; este procedimento distorce a análise do ambiente que nos rodeia, pois os governantes podem continuar a fazer o que bem entenderem, sempre almofadados com esta máxima: “fomos eleitos pelo povo – trabalhamos para o povo”, e não aquilo a que temos direito como cidadãos.
E nós continuamos virtual e inconscientemente convencidos disso...